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Entrevista #127 GONÇALO MAR

  • Foto do escritor: Da Chic Thief
    Da Chic Thief
  • 27 de out. de 2024
  • 36 min de leitura

PT

Nascido em Lisboa, mas vivendo desde sempre no Seixal, Gonçalo Mar começou a desenhar a giz no alcatrão aos 12 anos.


Quando acabou a licenciatura em Design de moda, foi trabalhar para o estúdio de animação Magic Toons e teve o seu primeiro contacto com o Graffiti.


Foi um dos mentores das VSP, do Seixal Graffiti e do À Babuja - Festival de Street Art do Seixal.



Já fez diversas exposições, individuais e coletivas, expôs em galerias de Paris, Amesterdão, Londres ou Califórnia.


Participou em vários festivais de Arte Urbana pela Europa e como ilustrador em diversas publicações.


Em 2022, recebeu a Medalha de Mérito Cultural do Município do Seixal.



Há muito que sigo o trabalho do meu convidado, tendo já fotografado diversas das suas peças (individuais ou de crew) espalhadas pela Grande Lisboa e pelo resto da país.


Apesar de nos cruzarmos com regularidade, ainda não tinha conseguido a participação do artista no meu blog.


Depois de o ter encontrado na edição mais recente da Festa do Avante, agendámos a entrevista no seu estúdio.



No rescaldo de um fogo que ameaçou a sua vizinhança, a conversa fluiu durante 3 horas de um sábado (na companhia de Klit, outro membro dos Thunders).


Os LEG e os Arm Collective, as VSP e os 10 anos dos Thunders, a Street Art e os "Grafffiti Hunters" foram alguns dos temas da tarde.


Aqui estão as suas respostas. Espero que apreciem.



Tens formação em design de moda? Era algo que pensavas seguir como carreira?


Pá, não. Eu na altura candidatei-me à Faculdade de Arquitetura de Lisboa, não entrei por uma décima, acho eu, e depois isso foi para aí a minha segunda ou terceira opção. E eu pensei "vou entrar e depois lá dentro peço permuta".


Entretanto, esquece. Depois aquilo não aconteceu e eu decidi continuar o curso, porque também já havia aquela história de "epá, isto vai encher-se de arquitetos e de designers e não sei quê e se calhar disto aqui até pode surgir qualquer coisa diferente e que possa ter mais oportunidades de trabalho.". E continuei.


Tinhas gosto pela arquitetura?


Ainda tenho, ainda tenho. Mas acabei por não ir para aí, desinteressei-me e comecei a procurar outras coisas.


Quando começou o teu interesse pelo graffiti e quais foram as tuas influências na altura?


Eu vou-te contextualizar aqui um bocadinho da história.


Eu em '97 tive o primeiro conhecimento com o graff. Já havia murais em Lisboa, dos PRM. Eu, na altura, já andava na faculdade e foi aí o primeiro contacto.


Depois estava sempre a medo de fazer coisas e não sei quê, não tinha ainda tentado nada, e em '98 entro para um estúdio de animação (que era o Magic Toons, ali nas Olaias). Ainda estive lá dois anos e, nesse tempo, foi onde conheci o Roket e o Klit.


E depois houve aquela sinergia assim brutal. Éramos todos da Margem Sul. O Roket já era o Roket (na altura, era o Ket). Já era assim uma lenda viva de Almada. E deu-nos ali uma série de dicas, uma das quais foi ter escolhido o meu nome.

 


De onde é que veio o nome MAR?


O nome foi mesmo isso, porque eu na altura surfava muito e estava sempre dentro de água e ele dizia-me: "Pá, mas tu gostas tanto de surfar, estás sempre dentro de água, estás sempre dentro do mar, podes pôr MAR. São 3 letras apenas e ainda não existe nenhum Mar". Na altura havia o Sea que era o Obey, mas ele escrevia Sea só quando pintava com a namorada, não era assim muito válido e era um nome inglês e eu pensei "epá, sim, bora!".


E comecei. Começámos todos com letras.


Na altura as minhas influências eram todas fora do graff, eram aqueles pintores mais clássicos: a Paula Rego, o Júlio Pomar, toda essa malta. Porque era toda a história que eu tinha estudado academicamente. O universo do graff veio depois, quando eu começo a pesquisar e começo a ver quem era quem no mundo do graffiti, porque na altura não se chamava street art, tudo era graffiti; os bonecos eram graffiti, as letras eram graffiti.


Depois fui muito influenciado por quem? No meio do graff, eram os Gêmeos, era o Alexone, havia uns americanos também muito bons, os espanhóis nessa altura também estavam muito bons, o Logan também foi assim uma grande influência na altura. E, pronto, e foi isso. Mas eu ia beber muito a artistas de pintura clássica.


Em quantos países já pintaste? Houve algum festival / evento que te marcou significativamente?


Eu prefiro dizer onde não pintei e gostava de ter pintado. Não pintei no Brasil, gostava de ter pintado no Brasil. Pintei na Califórnia. Gostava de ir ao Canadá, não sei porquê. Depois pintei em Espanha, França, Açores, Madeira, Cabo Verde, Maldivas (pintei nas Maldivas e também foi fixe).


Qual é que marcou mais? Marrocos foi fixe. Eu acho que todos me marcaram.


Houve uma altura da minha vida, da minha carreira de pintor, foi quando eu e o Ram éramos patrocinados pela East Pack e, de repente, houve uma coisa que começámos a fazer cá em Portugal e os distribuidores lá fora quiseram fazer também. Havia o regresso às aulas e os putos quando iam comprar o material de escola havia ações, que eram feitas nas lojas, em que estava eu e o Ram a pintar mochilas. Aquela merda bateu bué lá fora e então fomos convidados para a Turquia, passei 5 anos da minha vida a ir lá todos os anos, criámos mesmo uma família, foi muito muito fixe essa, fase.


Posso dizer que o que marcou mais foi uma viagem que fizemos ao Iraque, ao Koweit. Foi a experiência mais alucinogénica que eu tive na vida. No avião estava um gajo ao meu lado (os gajos não podiam beber álcool) o gajo embebedou-se para chegar lá bêbedo. E, então, foi assim a experiência mais surreal que eu tive, ir pintar ao Koweit.

 


As tuas peças já figuram em diversas cidades portuguesas. Gostavas de deixar a tua marca em todos os municípios portugueses? 


Gostava e eu espero que isso aconteça, não só em Portugal mas também fora de Portugal. Porque eu tenho um conceito que eu quero explorar, que tem a ver com o meu Turista... não sei se posso já revelar esta minha ideia, mas é só para fazer com que este Turista assuma ou tenha uma imagem quase que mundial.


Voltando um bocadinho atrás, gostava sim, gostava que um dia pudesse pintar uma igreja. É o meu projeto de sonho.


O teu estilo, o teu trabalho, as tuas peças são graffiti ou street art?


Eu diria que isto é o trabalho de um artista. Agora se é feito numa tela, numa parede, se é feito num lençol, se é feita num vidro, isso depois é que vai encaixar nesses estereótipos. Porque nós precisamos sempre, para a gente conseguir explicar aquilo que vê, tens que meter sempre isto dentro de caixinhas e de compartimentos. Isto é a street art porquê? Porque tem estas qualidades. Então, só pode pertencer à street art. O graffiti também só pode ser graffiti se for feito desta maneira e desta forma.


Achas que o graffiti, como muitos dizem, é só letras?


Sim, sem dúvida.



Mas ainda há pouco dizias que no início tudo era graffiti, as letras eram graffiti, os bonecos eram graffiti...


Sim, sim... disse-te isto no contexto de não havia mais nenhuma definição. Tudo o que tu vias na rua era graffiti. E era, no geral, para os que viam, os transeuntes, os que estavam de fora. Mas quem fazia o graff na altura, eram os mais fundamentalistas (ainda os há, bastantes), para eles o graffiti puro e duro é letras / rua / ilegal e o nome repetido inúmeras vezes.


Depois é que começou a haver muitos estilos e muitas variantes e aí é que foi preciso haver uma definição.


Olha, nós a primeira VSP que fizemos, no Bairro Alto, na altura ninguém chamava street art, não havia esse nome. Eu nem sei como é que apareceu o termo, não existia.


Como é o teu processo criativo e onde vais buscar as inspirações para as tuas peças? Já vi que chegaste a um estilo próprio (as flores, os animais)...

 

Eu acho que todos estes artistas com que tens falado, se calhar também já te apercebeste disso... Há um sentido de procura desde que tu começas a trabalhar a tua vertente artística, o teu desenhar, e essa procura é a originalidade, é o que te vai diferenciar do resto da malta. E isso foi sempre uma preocupação minha, foi "como é que eu consigo sobressair?". E isso foi uma das coisas que me levou a deixar de pintar letras. O tempo que eu vou perder a descobrir um estilo ou uma estrutura de bonecada minha, ou um estilo de letras minhas, ia estar a perder tempo quando podia estar a estudar um tipo de bonecada ou uma estrutura de bonecada minha. Digo isto muitas vezes, a rua acho que é um veículo muito mais interessante do que escrever só o nome. Isto já sai fora da tal filosofia do graffiti.



Já fizeste homenagens a Álvaro Cunhal, Ti João, Frida, Dali, MfDoom, Agustina Bessa Luis, Zeca Afonso, entre outros. Qual é a figura que gostarias muito de recriar ao teu estilo?


Tenho andado a pensar nisso. Não sei. Houve aí uma fase que tentei fazer isso mas depois não consegui, porque era muito complicado, que era fazer uma espécie de um tributo rápido às pessoas que iam falecendo e de quem eu gostava e me diziam alguma coisa e eu fazia assim um esboço muito rápido e coloquei na net algumas vezes. Uma delas foi a Paula Rego, outro foi aquele ator americano Ray Liota (que era o gajo que fazia os mafiosos). Então, acho que comecei por aí e agora a minha intenção, não sei se isto faz algum sentido, era pintar os maus da fita de hoje, que a gente acha que são os maus da fita (também um pouco por causa das notícias), mas era pintar um Putin em flores ou pintar o Kim Jong-un, ...



Queres pintar os ditadores em flores e suavizar-lhes a imagem?


É quase como se tu quisesses encontrar o lado bom. Mais nesse sentido, naturalizá-los. Fiz isso com o Trump, que eu acho que ficou muito fixe, pus-lhe um boné a dizer "Make nature great again" em vez de ser América.


Houve uma ideia muito muito fixe (que até veio da parte do Klit), que era pintar o Maradona com a flor da coca. Foda-se, era lindo.


Não sei, há ideias que tu acabas por trabalhar umas melhor que outras, umas fazem mais sentido que outras, mas nesta altura do meu processo criativo vou dar muito mais atenção a isto da Natureza, de naturalizar as formas humanas em flores, exatamente por esse discurso da conexão que a gente tem com a Natureza e a maneira como a gente tem que a respeitar. E, se calhar, mostrar um bocadinho da nossa pequenez em relação ao processo dela, da Natureza. E agora tive aqui uma experiência há pouco tempo, aqui à porta, que foi uma demonstração brutal do poder do fogo. É mais por aí que eu quero ir.

 


Pintas com sketch ou freestyle? E quando partes para uma empena, usas projetor ou não?

 

Agora, nos últimos tempos, tenho usado grelha. Havia uma fase bué bonita que se perdeu (com esta história toda dos projetores e das grelhas e tudo mais), eu tinha uma relação muito engraçada com a parede e com a maneira como eu fazia, também era assim um bocado numa mais de loucura, que era fazer tudo desde o princípio lá. Tinhas uma ideia, fazia-se um esboço no papel e eu tentava passar para a parede, mais certo ou mais errado, que eu tenho assim um estilo muito descompensado, o que quer dizer que eu podia variar as medidas e não tinha problema se o olho ficava maior ou o nariz ficava fora do sítio. E de há uns tempos para cá eu senti a necessidade de estruturar mais a coisa. Também porquê, porque começou a haver, por parte do cliente, da Câmara ou das pessoas que nos contratavam, uma preocupação maior em quererem saber o que é que ia ser feito e, na altura, há uns bons anos atrás, a gente conseguia convencer as pessoas, tipo "não se preocupem, a gente sabe o que está a fazer". E a verdade é que havia esse elemento surpresa que era interessante. Agora acho que o nível subiu tanto que há pessoas que começam a mostrar projetos à séria e tu acabas por te sentir na obrigação de mostrares também, de venderes o teu produto com mais qualidade. Eu lembro-me de uma pintura que nós fizemos (eu e o Ram) em Sines, reunimos lá com o Presidente da Câmara ou Presidente da Junta, as pessoas que nos tinham contratado, e a gente levava só umas fotografias de trabalhos nossos e dissemos: "Não se preocupem, é para o quê? Um tributo aos pescadores? Sim, a gente vai fazer aqui peixinhos, não se preocupem. Mas o que é que vão fazer?". E depois fizemos uma cena bué engraçada, que na altura nem sequer estávamos a pensar no que é que íamos fazer, não sabíamos. E fizemos assim uma espécie de um peixe gigante a atravessar um portal e que se transformava em peixinhos pequeninos. E toda a gente gostou, aquilo foi muito bem recebido e nunca tivemos projeto. Eu raramente tinha projeto com o Ram, era impossível, e essa parte de freestyle era a maneira de trabalhar.


O que toca na tua playlist quando pintas?


Epá, tanta coisa, tanta coisa. Eu tenho fases de descobrir um artista e se calhar ouvir em repeat. Lembro-me, por exemplo, do trabalho que eu fiz com o Freddy em Almada, aquela entrada do Centro Sul, Deftones de uma ponta à outra, só. Era o som que eu achava que curtia ali, sei lá. Mas gosto de muita coisa. Eu sou do tempo do Grunge, então oiço muita coisa antiga. Mas, lá está, é de fases.


As tuas pinturas em férias já são um clássico. Como surgiu aquela figura já tão conhecida, o peixe/mão?



O teu mural “Jardins Efémeros” em Setúbal é um dos meus preferidos. Tens alguma peça favorita?


Tenho várias. Não consigo dizer que tenha uma que seja a minha favorita, acho que todas elas têm a sua própria magia. Aquela foto que vimos há pouco do Graffiti Eaters foi brutal. Sabes quando tu chegas ao fim e tens uma satisfação incrível depois de teres visto aquilo que ficou feito? É brutal.


Eu acho que há assim várias que me vão ficando ao longo dos anos. Se calhar quando há aquela altura de "ok, está feito, vamos mudar aqui um bocadinho o estilo". Essas, se calhar, são as mais... ou então quando tu descobres alguma coisa que vais experimentar e a coisa sai bem, também gosto muito. Não tenho assim nenhuma que diga "epá, esta foi a melhor de sempre".


Lembro-me a que fiz no Barreiro há já uns anos. Era o Polaridades, em que eu fiz o senhor que construiu basicamente o Barreiro por causa da fábrica da Quimigal (que eu não me lembro do nome dele). E então havia muita gente que passava lá e dizia: "Mas está a pintar um criminoso". E outros passavam lá e diziam: "Incrível, ainda bem que se estão a lembrar do senhor". Porque ele era um benfeitor, na altura, só que ele era simpatizante do Salazar e havia muitas contradições, muitas bipolaridades em relação à pessoa. E quando eu fiz isso daquele tamanho foi a primeira cara em flores e em objetos que eu fiz que eu senti mesmo "isto pode resultar" e toda a gente o reconhecia. Essa aí eu lembrei-me recentemente que foi o meu ponto de viragem, de querer deixar de fazer os elementos todos em separado e juntá-los todos num bloco, de ser uma estrutura muito mais coesa.



Murais, empenas, campos de basquete, rampas de skate, pranchas de surf … Quais são os teus suportes preferidos para pintar?

                                       

Rua, parede. É o clássico. Apesar de eu sentir que a efemeridade das peças na rua (em parede) deixa-me um bocadinho triste porque dá-te a sensação de desapareceres e eu tenho medo de desaparecer e nunca mais ser interpretado, falado, sentido. E então estou a ir pelo lado de intervenções públicas a nível de escultura, que é uma coisa que me fascina.



Foi a tua primeira escultura?


Esta foi a primeira. Eu já tinha pintado a rotunda da Amora há 20 anos atrás, tinha uma caravela, uns peixes e agora é um cravo. E dá outro sentido de permanência e de ocupação de rua. E este ocupar acho que é muito mais... tem uma longevidade diferente a nível de vida e também consegues comunicar e passar a tua mensagem e eu acho que é muito mais forte a nível de contexto artístico, porque eu acho que consegues transmitir outras emoções com uma escultura, se for bem feita e se for com algum sentido (há aí esculturas que tu olhas e não percebes nada daquilo). Acho que é assim um passo que eu gostava de tomar como artista urbano.



Referiste a efemeridade das peças na rua. Qual é a tua postura em relação aos fotógrafos de arte urbana, os chamados graffiti hunters?


Eu acho que é uma pergunta pertinente. Se calhar a minha resposta não vai ao encontro do que a maioria dos writers pensam ou acham, mas eu gosto desse elemento na hierarquia que existe na nossa comunidade. Eu vou fazer aqui uma comparação que é capaz de ser assim um bocado... não interessa, é o que eu sinto portanto é o que eu vou dizer. Sabes aqueles animais que andam em cima dos hipopótamos e dos crocodilos? Não são parasitas, eles vão ali buscar o alimento que lhes dá vida, dá-lhes prazer. Conseguem matar a fome e ao mesmo tempo estão a ajudar os grandes animais. E é assim que eu os vejo.


Eu acho que nós, enquanto artistas de rua, estamos super expostos. Nós, enquanto artistas de rua, estamos a fazer um trabalho que deixa de ser nosso a partir do momento em que te vais embora, fica ali. Enquanto estás a fazer um trabalho de rua, tu não vais pensar no impacto que aquilo vai ter na vida das pessoas que vão passar por ali todos os dias e vão ver aquilo. Já alguma vez pensaste nisto?



A verdade é que em tudo isto que a gente faz e tudo o que acontece nas ruas acaba por haver uma série de sub-existências ou sub-lugares e pessoas que depois acabam por fazer parte do próprio graffiti. E, portanto, eu acho muito bem que elas existam, o que significa que se estão a fotografar é porque sentem que o teu trabalho é válido, de alguma maneira, e que é interessante para eles, para tirar fotografia. E faz com que o nosso trabalho seja cada vez mais visto, apreciado noutros canais e noutros públicos, noutras comunidades e noutros movimentos. Portanto, eu acho que é uma mais-valia e eu olho para aquilo e sinto também um prazer meu, porque estamos a dar algum alento a pessoas, na maioria dos casos são pessoas reformadas (não é o teu caso, não é?), que encontram ali um prazer de começarem o dia e vão fazer o check do material, agora já sabem que têm ali uma cena nova para porem na máquina, para fotografar. Já sabem que: "Espera lá que há aqui um gajo que está a começar um trabalho novo e eu vou lá". E para eles é um jogo tão interessante e tão fixe que a mim sabe-me bem fazer parte desse jogo. Nós somos peças de um tabuleiro que eles têm em casa e que dizem assim: "Ok, tenho aqui a zona da Amadora, estão aqui os Thunders , vão começar aqui esta parede, deixa-me lá ir ver como aquilo está". E vão lá e já sabem que está lá outro gajo que já fotografou mas não disse nada.


E mesmo entre eles há ali um jogo de "guerras" para ser o primeiro. Eu acho isso super interessante, porque depois há uma dinâmica própria dentro deles, que a gente nem sequer conhece nem quer saber, nem estamos a par nem nada, mas para mim dá-me assim um gozo mesmo de "faço parte disto". Estás a ver?

      

Fazes parte dos Arm Collective e dos Thunders. Como te sentes a pintar, há tantos anos, com esses vultos do graffiti nacional?

 


Com que artista / writer gostarias de fazer uma peça conjunta?

 

A qualquer nível? Com quem é que eu gostava de fazer uma peça... Bem, gostava de fazer com um arquiteto, gostava de fazer parte de uma obra por exemplo do Siza Vieira, gostava de fazer parte de uma obra do Souto Moura e agora estava a tentar lembrar-me daquele gajo que fez aquele prédio ao pé do sítio onde a gente fez a exposição (o carrega betão, eheheh), que aquilo está espetacular, está brutal. Gostava de trabalhar com um arquiteto, fazer uma obra inserida num projeto de arquitetura.


Qual é o teu top 3 de artistas / writers portugueses?



E de artistas / writers estrangeiros?


Os Gêmeos é incontornável. Acho que foram uns gajos que rebentaram tudo na altura que começaram a pintar e foi assim uma cena bué nova.


Tens um gajo que eu acho que está antes dos Gémeos, que esteve cá há pouco tempo na Urban(R)Evolution e eu gostava de ter ido surfar com o gajo e não consegui. Que é o Barry McGee.


Já temos 2... tudo malta mais do figurativo.


Que exposição foi mais marcante, a VSP ou os 10 anos dos Thunders?


A VSP. A VSP bate isso tudo. Era tudo brutal, era tudo novo, era tudo a primeira vez. Naquele conceito de pegares em artistas de rua e meteres num sítio em que não eram suposto estar, porque era um espaço abandonado, uma fábrica. Era como pegarmos em sete artistas ou sete writers e metermos num espaço abandonado, passarmos lá uma semana e depois abrirmos as portas às pessoas. Esse foi sempre o conceito da VSP, o conceito base.


Chegou a ter 10 edições e depois aí parámos, porque já não conseguíamos.


Foram 8. (Freddy)


Recebeste a "Medalha de Mérito Cultural" da Câmara Municipal do Seixal. Sentes que é o reconhecimento devido por todo o trabalho que tens vindo a desenvolver em prol das Artes Urbanas, naquele concelho e em tantos outros?


Sim, foi. Senti-me muito bem de ser reconhecido pelo trabalho que fiz, especialmente com a Câmara do Seixal, porque eu quando comecei a pintar, em '98, a primeira coisa que eu pensei em fazer para conhecer mais writers ou mais artistas era organizar eventos e, de certa maneira, chamar essa malta para os conhecer, para estar e tudo o mais. E comecei a trabalhar diretamente com a Câmara, criei uma Associação e tal (estamos a falar em '98 / '99, não é), era a Spread (eu e o Pipoca... era mais eu e o Pipoca aparecia por lá). E, então, todo esse trabalho que eu desenvolvi com a Câmara, desde o Seixal Graffiti ao Março Jovem (que ainda existe), que era nos antigos refeitórios da Mundet... só para tu teres ideia, eu organizei lá uma exposição que era 1/4 de graff, que eu acho que foi a primeira exposição de muita gente e foi a apresentação das primeiras Montana Gold em Portugal. E depois desenvolveu-se para uma série de coisas que foram acontecendo, não é? Por isso, eu acho que essa Medalha de Mérito Cultural é de certa maneira o reconhecimento deste trabalho todo que a gente tem vindo a fazer / que eu tenho vindo a fazer, no Concelho e tudo mais. Porque houve uma altura que o próprio Seixal era equiparado com Oeiras, mesmo a nível de mostra de graffiti. Houve uma altura em que quando tu falavas de graffiti em Portugal era o Seixal e Oeiras (e Oeiras era concurso e o Seixal era jam). Chegámos a ter... eu contei, na altura, 75 pessoas a pintar numa ponta a outra (do muro da Mundet). Porque eu dizia assim "vai acontecer" e convidava a malta, mas depois aparecia alguém que tipo: "Epá, tenho aqui umas latas. Olha, podes pintar ali, podes pintar ali, ...".


Houve um ano no Seixal Graffiti que eu não tinha espaço para pintar e pintei o T do Monster. Porque eu disse "não há espaço para mim, que se lixe.", mas pintei o T do Monster (Klit).


Eu acho que foi aí que eu disse "não quero saber mais disto". Era bué exaustivo e depois ou eras produtor ou eras artista e estar a levar com aqueles filmes todos era bué intenso. Já não estava capaz, com capacidade para aguentar. E pronto, depois eu saí, houve ali uma altura que o Vasco Rodrigues ainda tentou agarrar naquilo (é jornalista e fotógrafo de concertos).


Então, eu acho que sim, já consegui feitos aqui no Seixal que eu acho que demonstram este mérito.



Pegando nessa tua ligação ao Seixal, há muitas vezes aquela impressão das pessoas que chegam a algumas cidades e perguntam "Mas são sempre os mesmos?". Qual é a tua opinião?


Isso é muito fácil de explicar. A verdade é que a gente costuma dizer que o Mundo é uma ervilha, certo? E então tu tens essa sensação porque são as pessoas que mais trabalharam para estar lá. Eles não são escolhidos pelos lindos olhos. Vai ao encontro do que estava a dizer, são pessoas que trabalharam ou que conquistaram o seu lugar para estar ali. Por isso acho que isso é , se calhar, dicas de alguém que gostava de estar ali ou que diz assim: "Eu também conseguia fazer aquilo". Mas a verdade é que nunca experimentaram ou nunca tentaram. Porque se tentassem iam ver o trabalho que dá. Portanto, o sempre o mesmo acaba por ser culpa dos que não fazem nada, é mais por aí. Porque nós chegamos a um sítio porque trabalhámos para o conquistar, tem um bocado a ver com isso. E durante muito tempo esses "os sempre os mesmos" eram os únicos que, de certa maneira, se queriam evidenciar de alguma forma. E não vejo razão para os desapontar, muito pelo contrário, acho que vejo uma razão é para perceber como eles o conseguiram fazer.



Quais são os teus planos / projetos futuros?

 

Continuar a pintar até conseguir, nunca largar a rua nem os abandonados e continuar a evoluir no meu trabalho (outros materiais, o que tinha falado antes de que gostava de criar mais obras públicas, acho que vou tentar fazer mais coisas dessas, se me deixarem).


E tenho este projeto com o Turista que acho que vai ser o meu próximo, vai ser o meu projeto de vida. Ainda na outra vez estava a falar com alguém, acho que era com o Mário Belém, de que todos os artistas ficam conhecidos por algum detalhe de trabalho ou alguma coisa que fica quase como uma referência do trabalho do artista x ou y e eu acho que este meu Turista vai ficar sempre como uma referência do meu trabalho. Se calhar daqui a uns anos, quando um gajo já cá não estiver e falarem e contarem a história do Gonçalo Mar, era o gajo que fazia peixinhos e tudo bem, por mim.



Tens alguma história que queiras partilhar?

 

A que me veio à cabeça foi aquela história da fotografia que o Freddy trouxe, que foi na nossa hora de almoço, decidimos ir pintar a primeira parede (para mim foi a primeira parede, para o Freddy não, já tinha pintado) e fomos apanhados pela polícia. Foi um episódio que me marcou.


Mas depois tenho outras tantas. A mais recente foi ter sido apanhado (por um polícia municipal) no Amoreiras a pintar um peixinho (e estava com a minha mulher e a minha filha mais velha) e disse a ele que achava que o muro era legal (que eu acho que nem existe, agora só existe metade) e ele disse: "Ok, mas o que é que você está a fazer? Epá, eu sou um artista, estou a pintar isto, mas posso-lhe mostrar". E tirei um autocolante e mostrei-lhe, "é isto que eu vou fazer". Eu estava com o autocolante na mão e o gajo olhou para o autocolante, saca-me o autocolante e diz assim: "Eu nunca estive aqui.", pega no carro e arranca. Assim do nada. Eu continuei, acabei a minha peça e fui-me embora.


Props?


Quero mandar props a todos os heróis desconhecidos. E basicamente esses heróis são pessoas que acreditam nos seus sonhos. São pessoas que acham que têm alguma coisa para dizer e expressam-se através da arte, seja ela qual for, e lutam para fazer alguma coisa ou para transmitir alguma coisa. E então, grandes props a essa malta toda.


Fotos e Vídeos: Mar & Da Chic Thief

Photos & Videos: Mar & Da Chic Thief


ENG

Born in Lisbon, but always living in Seixal, Gonçalo Mar started drawing in chalk on tar at the age of 12.


When he finished his degree in Fashion Design, he went to work for the Magic Toons animation studio and had his first contact with Graffiti.


He was one of the mentors of VSP, Seixal Graffiti and À Babuja - Seixal Street Art Festival.


He has had several solo and group exhibitions, exhibited in galleries in Paris, Amsterdam, London or California.


He participated in several Urban Art festivals across Europe and as an illustrator in several publications.


In 2022, he received the Medal of Cultural Merit from the Municipality of Seixal. I have been following my guest's work for a long time, having already photographed several of his pieces (individual or crew) spread across Greater Lisbon and the rest of the country.


Even though we cross paths regularly, I still hadn't managed to get the artist to participate on my blog.


After meeting him at the most recent edition of Festa do Avante, we scheduled the interview in his studio.


In the aftermath of a fire that threatened their neighborhood, the conversation continued for 3 hours on a Saturday (in the company of Klit, another member of the Thunders).


LEG and Arm Collective, VSP and 10 years of Thunders, Street Art and "Grafffiti Hunters" were some of the afternoon's themes.


Here are his answers. I hope you appreciate it


Do you have training in fashion design? Was it something you planned on pursuing as a career?


Man, no. At the time, I applied to the Faculty of Architecture in Lisbon, I didn't get in for a tenth, I think, and then that became my second or third option. And I thought "I'm going to go in and then inside I'll ask for an exchange".


However, I forgot. After that it didn't happen and I decided to continue the course, because there was also that story of "Hey, this is going to be filled with architects and designers and I don't know what and maybe something different could come up here and that could have more job opportunities." And I continued.


Did you have a taste for architecture?


I still have it, I still have it. But why did I just not go there and I became disinterested and started looking for other things.


When did your interest in graffiti begin and what were your influences at the time?


I'm going to contextualize a little of the story here.


In '97 I had my first acquaintance with graff. There were already murals in Lisbon, by the PRM. I, at the time, was already in college and that was my first contact.


Afterwards, I was always scared of doing things and I don't know what, I hadn't tried anything yet, and in '98 I joined an animation studio (which was Magic Toons, there in Olaias). I was there for two more years and, during that time, it was where I met Roket and Klit.


And then there was that brutal synergy. We were all from the South Bank. Roket was already Roket at the time (he was Ket). He was already a living legend of Almada. And he gave us a series of tips, one of which was choosing my name.


Where did the name MAR come from?


That's exactly what the name was, because at the time I surfed a lot and was always in the water and he said to me: "Man, but you like surfing so much, you're always in the water, you're always in the sea, you can say SEA. There are only 3 letters and there is still no Sea". At the time there was Sea, which was Obey, but he only wrote Sea when he painted with his girlfriend, it wasn't very valid and it was an English name and I thought "Hey, yes. Let's go!"


And I started. We all started with letters.


At the time, my influences were all outside of graffiti, they were those more classic painters: Paula Rego, Júlio Pomar, all those guys. Because it was all the history I had studied academically. The world of graffiti came later, when I started researching and started to see who was who in the world of graffiti, because at the time it wasn't called street art, everything was graffiti; the dolls were graffiti, the letters were graffiti.


Afterwards, who was I greatly influenced by? In the middle of the graff, it was the Twins, it was Alexone, there were some very good Americans, the Spanish at that time were also very good, Logan was also a big influence at the time. And, that was it, and that was it. But I would drink a lot to classical painting artists.


In how many countries have you painted? And was there any festival/event that had a significant impact on you?


I prefer to say where I didn't paint and would like to have painted. I didn't paint in Brazil, I would have liked to have painted in Brazil. I painted in California. I would like to go to Canada, I don't know why. Then I painted in Spain, France, Azores, Madeira, Cape Verde, Maldives (I painted in the Maldives and it was also cool).


Which one scored the most? Morocco was cool. I think they all made an impression on me.


There was a time in my life, in my painting career, when Ram and I were sponsored by East Pack, and suddenly something we started doing here in Portugal and the distributors abroad wanted to do it too. There was back to school and when the kids went to buy school supplies there were actions, which were held in stores, where Ram and I were painting backpacks. That shit hit a lot out there and then we were invited to Turkey, I spent 5 years of my life going there every year, we really created a family, that phase was really cool.


I can say that what stood out the most was a trip we took to Iraq, to ​​Kuwait. It was the most hallucinogenic experience I had in my life. On the plane there was a guy next to me (guys weren't allowed to drink alcohol) the guy got drunk to get there drunk. And then, it was the most surreal experience I had, going to paint in Kuwait.


Your pieces are already featured in several Portuguese cities. Would you like to leave your mark in all Portuguese municipalities? 


I would like to and I hope this happens, not only in Portugal but also outside of Portugal. Because I have a concept that I want to explore, which has to do with my Tourist... I don't know if I can reveal this idea of ​​mine yet, but it's just to make this Tourist assume or have an almost global image.


Going back a little, I would like it, I would like it to be possible to paint a church one day. It's my dream project.


Are your style, your work, your pieces graffiti or street art?


I would say this is the work of an artist. Now if it's done on a screen, on a wall, if it's done on a sheet, if it's done on glass, that's what will fit these stereotypes. Because we always need, in order for us to be able to explain what we see, we always have to put it in little boxes and compartments. Why is this street art? Because it has these qualities. So, it can only belong to street art. Graffiti can also only be graffiti if it is done in this way and in this way.


Do you think that graffiti, as many say, is just letters?


Yes, without a doubt.


But just now you said that in the beginning everything was graffiti, the letters were graffiti, the dolls were graffiti...


Yes, yes... I told you this in the context of there being no other definition. Everything you saw on the street was graffiti. And it was the general public, those who saw it, the passersby, those who were outside. But those who did the graffiti at the time were the most fundamentalists (there are still quite a few of them), for them pure and hard graffiti is letters / street / illegal and the name repeated countless times.


Then there started to be many styles and many variants and that's when there needed to be a definition.


Look, we were the first VSP we did, in Bairro Alto, at the time nobody called it street art, there was no such name. I don't even know how it appeared. It didn't exist. I don't even know how the term street art came about.


What is your creative process like and where do you get inspiration for your pieces? I've seen that you've arrived at your own style (the flowers, the animals)...  

I think maybe all these artists you've been talking to have already realized that too. There is a sense of search since you start working on your artistic side, your drawing, and that search is originality, it is what will differentiate you from the rest of the crowd. And that was always a concern of mine, it was "How can I stand out?". And that was one of the things that led me to stop painting letters. The time I'm going to waste discovering a style or structure of my own dolls, or a style of my own letters, I would be wasting time when I could be studying a type of dolls or a structure of my own dolls. I say this often, I think the street is a much more interesting vehicle than just writing the name. This goes beyond the philosophy of graffiti.


You have already paid tribute to Álvaro Cunhal, Ti João, Frida, Dali, MfDoom, Agustina Bessa Luis, Zeca Afonso, among others. What figure would you really like to recreate in your style?


I've been thinking about it. I don't know. There was a stage where I tried to do this but then I couldn't, because it was too complicated, which was to make a kind of quick tribute to people who passed away and who I liked and they said something to me and I made a very quick sketch. and I posted it online a few times. One of them was Paula Rego, another was that American actor Ray Liota (who was the guy who played the mobsters). So, I think I started there and now my intention, I don't know if this makes any sense, was to paint today's bad guys, who we think are my bad guys, also a little because of the news, but it was paint a Putin in flowers or paint Kim Jong-un,...


Do you want to paint dictators in flowers and soften their image?


It's almost like you want to find the good. In this sense, naturalize them. I did that with Trump, who I think was really cool, I put a hat on him saying "Make nature great again" instead of being America.


There was a very cool idea that even came from Klit, which was to paint Maradona with the coca flower. Fuck, it was beautiful.


I don't know, there are ideas that you end up working on better than others, some make more sense than others, but at this point in my creative process I'm going to pay much more attention to this thing about Nature, of naturalizing human forms in flowers, exactly for that reason. speech about the connection we have with Nature and the way we have to respect it. And, perhaps, show a little of our smallness in relation to its process, Nature's. And now I had an experience here recently, here at the door, which was a brutal demonstration of the power of fire. That's more where I want to go.


Do you paint with sketch or freestyle? And when you go to a gable, do you use a projector or not?


Now, recently, I've been using a grill. There was a really beautiful phase that was lost (with all this stuff about the projectors and the grids and everything), I had a really funny relationship with the wall and the way I did it, it was also like that, a bit more crazy, which was to do everything from the beginning there. You had an idea, you made a sketch on paper and I tried to put it on the wall, more rightly or wrongly, because I have a very uneven style, which means I could vary the measurements and it wouldn't be a problem if the eyes would get bigger or the nose would be out of place. And for some time now I have felt the need to structure things more. Also why, because there began to be, on the part of the client, the City ​​Council or the people who hired us, a greater concern in wanting to know what was going to be done and, at the time, a good few years ago, we managed to convince people, like "Don't worry, we know what we're doing." And the truth is that there was this element of surprise that was interesting. Now I think the level has risen so much that there are people who are starting to show projects in earnest and you end up feeling obliged to show them too, to sell your product with more quality. I remember a painting that we did (me and Ram) in Sines, we met there with the President of the City Council, the people who had hired us, and we just took some photographs of our work and we said "Don't worry, what is it for? A tribute to the fishermen? Yes, we're going to make fish here, don't worry." "But what are they going to do?" And then we did a really funny scene, which at the time we weren't even thinking about what we were going to do, we didn't know. And so we made a kind of giant fish passing through a portal and transforming into tiny fish. And everyone liked it, it was very well received and we never had a project. I rarely had a project with the Ram, it was impossible, and this freestyle part was the way to work.


What plays on your playlist when you paint?


Wow, so many things, so many things. I go through stages of discovering an artist and maybe listening to them on repeat. I remember, for example, the work I did with Freddy in Almada, that entrance to Centro Sul, Deftones from one end to the other, that's it. It was the sound I thought I liked there, I don't know. But I like a lot of things. I'm from the Grunge era, so I listen to a lot of old stuff. But, there it is, it's phases.


Your mural “Ephemeral Gardens” in Setúbal is one of my favorites. Do you have a favorite piece?


I have several. I can't say that there is one that is my favorite, I think they all have their own magic. That photo we saw a while ago of Graffiti Eaters was brutal. Do you know when you reach the end and feel incredible satisfaction after seeing what was done? It's brutal.


I think there are several that have stuck with me over the years. Maybe when there's that moment of "Okay, it's done, let's change the style a little here". Those, perhaps, are the most... Or when you discover something that you're going to try and it turns out well, I also really like it. I don't have any that say "Wow, that was the best ever".


I remember the one I did in Barreiro a few years ago. It was Polaridades, in which I played the man who basically built Barreiro because of the Quimigal factory (I don't remember his name). And then there were a lot of people who passed by and said "But you're painting a criminal" and others passed by and said "Incredible, I'm glad they're remembering you." Because he was a benefactor, at the time, but he was a sympathizer of Salazar and there were many contradictions, many bipolarities in relation to the person. And when I made it that big it was the first look on flowers and objects that I made that I really felt "This could work" and everyone recognized it. That one I recently remembered was my turning point, of wanting to stop making all the elements separately and bring them all together in a block, to be a much more cohesive structure.


Murals, gables, basketball courts, skateboard ramps, surfboards... What are your favorite supports to paint on?                                          


Street, wall. It's the classic. Even though I feel that the ephemerality of the pieces on the street (on the wall) makes me a little sad because it gives you the feeling of disappearing and I'm afraid of disappearing and never being interpreted, spoken or felt again. And then I'm moving towards public interventions in terms of sculpture, which is something that fascinates me.


Was it your first sculpture? 


This was the first. I had already painted the Amora roundabout 20 years ago, there was a caravel, some fish and now it's a carnation. And it gives another sense of permanence and occupation of the street. And this occupation, I think is much more... it has a different longevity in terms of life and you can also communicate and pass on your message and I think it is much stronger in terms of artistic context, because I think you can transmit other emotions with a sculpture, if it is well made and if it has some meaning (there are sculptures that you look at and don't understand anything about it). I think this is a step I would like to take as an urban artist.


You mentioned the ephemerality of the pieces on the street. What is your stance towards urban art photographers, the so-called graffiti hunters?


I think it's a pertinent question. Maybe my answer doesn't match what most writers think or think, but I like this element in the hierarchy that exists in our community. I'm going to make a comparison here that could be a bit like that... it doesn't matter, it's what I feel so that's what I'm going to say. You know those animals that ride on top of hippos and crocodiles? They are not parasites, they go there to look for the food that gives them life, gives them pleasure. They manage to satisfy hunger and at the same time they are helping large animals. And that's how I see them.


I think that we, as street artists, are overexposed. We, as street artists, are doing work that stops being ours from the moment you leave, it stays there. While you are doing street work, you won't think about the impact that it will have on the lives of the people who will pass by there every day and see it. Have you ever thought about this?


The truth is that in everything we do and everything that happens on the streets there ends up being a series of sub-existences or sub-places and people who then end up being part of the graffiti itself. And therefore, I think it's very good that they exist, which means that if they are taking photographs it is because they feel that your work is valid, in some way, and that it is interesting for them to take photographs. And it makes our work increasingly seen, appreciated in other channels and in other audiences, in other communities and in other movements. Therefore, I think it is an added value and I look at it and I also feel a sense of pleasure, because we are giving some relief to people, in most cases they are retired people (not your case, is it?), who find it a pleasure to start their day there and check their material, now they know that they have a new scene to put in the camera, to photograph. You already know that "Wait a minute, there's a guy here who's starting a new job and I'm going there". And for them it's such an interesting and cool game that it feels good to be part of that game. We are pieces on a board that they have at home and that say "Okay, I have the Amadora area here, the Thunders are here, they are going to start this wall here, let me go and see how it is". And they go there and they already know that there's another guy there who already took photos but didn't say anything.


And even between them there is a game of "wars" to be the first. I find this super interesting, because then there is a dynamic within them, which we don't even know about or want to know about, nor are we aware of or anything, but for me it really gives me the pleasure of "I'm part of this". Do you see?


Which exhibition was more memorable, the VSP or the 10 years of the Thunders?


The VSP. VSP beats all that. It was all brutal, it was all new, it was all the first time. That concept of taking street artists and putting them in a place they're not supposed to be, because it was an abandoned space, a factory. It was as if we took seven artists or seven writers and put them in an abandoned space, spent a week there and then opened the doors to people. This was always the VSP concept, the base concept.


It had 10 editions and then we stopped, because we couldn't do it anymore.


There were 8. (Freddy)  


What is your top 3 foreign artists/writers?


Os Gêmeos is unmissable. I think there were some guys who blew everything up when they started painting and it was a really new scene.


There's a guy who I think is from before the Twins, who was here recently at Urban(R)Evolution and I would have liked to go surfing with the guy but I couldn't. That's Barry McGee.


We already have 2... everything is mostly figurative.


Which artist / writer would you like to do a joint work with?  


At any level? Who would I like to do a piece with... Well, I would like to do it with an architect, I would like to be part of a work by Siza Vieira for example, I would like to be part of a work by Souto Moura and now I was trying remember that guy who built that building next to where we held the exhibition (he carries concrete, eheheh), that thing is spectacular, it's brutal. I would like to work with an architect, do work as part of an architectural project.


You received the "Medal of Cultural Merit" from Seixal City Council. Do you feel that this is due recognition for all the work you have been doing in favor of Urban Arts, in that municipality and in so many others?


Yes, it was. I felt very good about being recognized for the work I did, especially with Câmara do Seixal, because when I started painting, in '98, the first thing I thought about doing to meet more writers or more artists was to organize events and in a way, to invite these people to get to know them, to be with them and everything else. And I started working directly with the Chamber, I created an Association and such (we're talking about '98 / '99, right), it was Spread (me and Pipoca... it was more me and Pipoca appeared there) . And then, all this work that I developed with the Chamber, from Seixal Graffiti to Março Jovem (which still exists), which was in the old Mundet cafeterias... Just to give you an idea, I organized an exhibition there that was 1 /4 by graff, which I think was the first exhibition for a lot of people and was the presentation of the first Montana Gold in Portugal. And then it developed into a series of things that happened, right? Therefore, I think that this Medal of Cultural Merit is, in a way, recognition of all the work that we have been doing / that I have been doing, in the Council and everything else. Because there was a time when Seixal itself was equated with Oeiras, even in terms of graffiti exhibitions. There was a time when when you talked about graffiti in Portugal it was Seixal and Oeiras (and Oeiras was competition and Seixal was jam). We ended up having... I counted at the time 75 people painting from one end to the other (of the Mundet wall). Because I said, "It's going to happen" and invited people, but then someone would appear and say, "Hey, I have some cans here. Look, you can paint there, you can paint there, ...".


There was a year at Seixal Graffiti when I didn't have space to paint and I painted Monster's T. Because I said "There's no room for me, screw it.", but I painted Monster's T (Klit).


I think that's when I said, "I don't want to hear any more of this." It was very exhausting and then you were either a producer or an artist and being involved with all those films was very intense. I was no longer capable, capable of holding on. And that's it, after I left, there was a time when Vasco Rodrigues still tried to get hold of it (he's a journalist and concert photographer).


So, I think so, I've already achieved things here in Seixal that I think demonstrate this merit.


Taking your connection to Seixal, there is often that impression of people who arrive in some cities and ask "But are they always the same?". What is your opinion?


This is very easy to explain. The truth is that we usually say that the World is a pea, right? And then you have that feeling because they are the people who worked the hardest to be there. They are not chosen for their beautiful eyes. It matches what I was saying, they are people who worked or who earned their place to be there. So I think this is, perhaps, tips from someone who liked being there or who says "I could do that too". But the truth is that they never tried it or never tried it. Because if they tried, they would see how much work it takes. Therefore, always the same ends up being the fault of those who do nothing. It's more there. Because we arrived at a place because we worked to achieve it, has a lot to do with it. And for a long time these "always the same" were the only ones who, in a certain way, wanted to stand out in some way. And I see no reason to disappoint them, quite the opposite, I think one reason I see is to understand how they managed to do it.


What are your future plans/projects?


Continue painting until I succeed, never leave the street or the abandoned ones and continue to evolve in my work (other materials, what I had said before that I would like to create more public works, I think I will try to do more things like that, if they let me ).

And I have this project with the tourist that I think will be my next one, it will be my life project. The other time I was talking to someone, I think it was Mário Belém, that all artists are known for some detail of their work or something that is almost like a reference to the work of artist x or y and I think this my tourist will always remain as a reference for my work. Maybe in a few years, when a guy is no longer here and they talk and tell the story of Gonçalo Mar, it was the guy who made fish and that's fine with me.


Do you have a story you want to share?  


The one that came to mind was that story about the photo that Freddy brought, which was during our lunch hour, we decided to go paint the first wall (for me it was the first wall, not for Freddy, he had already painted it) and we were caught by the police. It was an episode that left an impression on me.


But then I have many others. The most recent one was that I was caught (by a municipal police officer) in Amoreiras painting a fish and I was with my wife and my eldest daughter and I told him that I thought the wall was cool (which I don't think even exists, now there is only half) and he said "Okay, but what are you doing? Hey, I'm an artist, I'm painting this, but I can show you". And I took out a sticker and showed him, "This is what I'm going to do." I had the sticker in my hand and the guy looked at the sticker, took the sticker from me and said "I've never been here.", got in the car and drove off. Just like that. I continued, finished my piece and left.


Props?


I want to send props to all the unsung heroes. And basically these heroes are people who believe in their dreams. They are people who think they have something to say and express themselves through art, whatever it may be, and fight to do something or to transmit something. And so, big props to all these guys.

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